‘Eu não quero ter razão, quero é ser feliz’, disse Gullar; leia perfil de 2010

DE SÃO PAULO

04/12/2016 13h12

Compartilhar

Ano em que completou 80 anos, 2010 foi um capítulo marcante na vida de Ferreira Gullar: lançou dois livros (o primeiro de poesia em 11 anos e outro de colagens), uma peça de teatro, fez um inesquecível discurso na Flip. E venceu o principal prêmio de literatura em língua portuguesa, o Camões.

Nessa época, Humberto Werneck foi a seu encontro, no Rio, para um perfil publicado na revista “Serafina”, da Folha. Encontrou, no apartamento onde Gullar vivia em Copacabana, um poeta mais doce, levando à risca uma frase que comoveu seus ouvintes na Flip, dias antes: “Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz”.

Gullar, um dos principais poetas brasileiros contemporâneos,morreu neste domingo (4), aos 86 anos.

Relembre o texto, abaixo.

Murilo Meirelles /Folhapress
Retrato de Ferreira Gullar para a capa da revista "Serafina", de 29 de agosto de 2010
Retrato de Ferreira Gullar para a capa da revista “Serafina”, de 29 de agosto de 2010

Salve, Poeta

HUMBERTO WERNECK
DO RIO DE JANEIRO

Como a amiga e anfitriã Ceres Feijó está viajando, ainda não se sabe qual será o cardápio do jantar. Quando ela voltar, trará ideias e o aniversariante será consultado. Na semana passada, Ferreira Gullar já podia adiantar, com base numa tradição que vem de muitos anos: é bem provável que Ceres ponha na mesa duas alternativas. “Nada de comidas exóticas”, descarta o poeta. “Em geral, ficamos mesmo no cozido, no picadinho ensopado, na carne assada e, é claro, nas gostosas sobremesas.” Sem esquecer o bolo e as velas, acrescenta a filha, Luciana, mãe de seus oito netos, já desdobrados em sete bisnetos, muitos dos quais estarão presentes à festa em torno do “vô Gullar”.

Este não será um 10 de setembro como os anteriores. O maranhense José Ribamar Ferreira vai fazer 80 anos. E há mais do que uma data redonda a comemorar: 11 anos depois de “Muitas Vozes”, ele está de livro novo, “Em Alguma Parte Alguma”, a ser lançado no Rio de Janeiro na próxima quarta-feira, pela editora José Olympio. Sai também o título “Zoologia bizarra”, pela Casa da Palavra, com reproduções das colagens que Gullar, sem pretensões a artista plástico, vem criando intermitentemente. Por fim, prepara-se para estrear em São Paulo, ainda sem data definida, a primeira montagem do monólogo “O Homem como Invenção de si Mesmo”, para a qual foi convidado Osmar Prado, 63, que interpretou Getúlio Vargas no longa-metragem “Olga” e Tião Galinha na novela “Renascer”.

Festança é o que não falta, portanto, neste ano já marcado pela conquista, em maio, do maior galardão da literatura em língua portuguesa, o Prêmio Camões, que se fez acompanhar de um simpático cheque de 100 mil euros. Para não falar da acolhida apoteótica que Gullar teve na Festa Literária Internacional de Paraty no começo deste mês, quando foi aplaudido de pé na apinhada Tenda dos Autores.

Tido por muitos como o mais importante poeta brasileiro em atividade, Ferreira Gullar só pode estar gostando de tudo isso, embora não veja significação especial em ter chegado aos 80. “O fato é que estou um ano mais velho”, diz com bom humor. Instado a fazer um balanço, acredita ser hoje “uma pessoa mais generosa e mais tolerante”, capaz de “compreender melhor coisas que antes não compreendia ou compreendia errado”, e de, quando é o caso, mudar de ideia —como fez ao desembarcar do comunismo, de que foi militante a ponto de ter pagado com a prisão, com a clandestinidade e com seis anos de exílio, por seu engajamento na luta. Já não pertence ao Partido Comunista Brasileiro, ao qual se filiou no dia do golpe militar de 1964. Mas não esperem dele pouca veemência se o assunto for o governo Lula, o PT ou Dilma Rousseff.

PALAVRAS CRUZADAS

Em outras frentes, porém, Gullar dá a impressão de ter se adoçado. Mais de meio século depois da cisão do movimento da poesia concreta, do qual chegou a participar com os poetas paulistas Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, ele não se inflama ao rememorar aquele capítulo. Mas faz questão de lembrar que “a briga foi provocada por eles”. Acha que, dos três, Augusto é “o melhor poeta”, e Décio, “o mais cordial, pessoa afetuosa” (“Tivemos divergências, depois ficamos amigos”, atenua Pignatari, mas não rende conversa: “Estou totalmente desinteressado desse tipo de assunto”. Instado a falar, Augusto silencia —nada de concreto.). Gullar lamenta que os irmãos Campos tenham tratado como inimizade o que era discordância no plano das ideias. Mas não se considera “dono da verdade” e, de novo, recita a frase com que espalhou arrepios numa Flip: “Eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz”.

A impressão que se tem é a de que chegou lá. Gullar oitentão parece feliz. Para trás ficaram dores e atribulações, como a perseguição política, a morte do filho Marcos, a doença de outro, Paulo —às voltas, como Marcos, com a esquizofrenia— e a morte da mulher, a atriz Thereza Aragão. Em 1994, agoniado com a perda de Marcos e Thereza, ele esteve a pique de “jogar a toalha” –e foi então que conheceu, na Feira de Frankfurt, a poeta carioca Claudia Ahimsa, 34 anos mais jovem, por quem instantaneamente se apaixonou. Sem papel passado, são, desde então, marido e mulher, num conveniente esquema de casas separadas, ela no Flamengo, ele num vasto e um tanto atulhado apartamento de cinco dormitórios no bairro de Copacabana, onde vive desde 1979. Sozinho. Maria das Dores, a cozinheira, e Bianca, a faxineira, não dormem no emprego, e já faz tempo que morreu o “querido companheiro” do poeta, com o qual coabitou durante 16 anos e que lhe inspirou dois livros, “Um Gato Chamado Gatinho e “O Gato que Virou História”. Morto o siamês, Gullar nunca mais teve gato, pois “amigo não se substitui”.

Homem caseiro, ele não é de muita vida social. Vascaíno moderado, já não vai ao Maracanã, que frequentou enquanto o amigo Oscar Niemeyer, 103, teve o privilégio de uma cabine para convidados. Limita-se ao futebol pela TV -na qual vê também noticiários, filmes e alguma novela. O coautor de seriados como “Carga Pesada” [na versão dos anos 1970] e “Obrigado, Doutor” está acompanhando e curtindo a novela “Passione”. E ouvindo “a boa música popular brasileira [de antes do tropicalismo] e a boa música dita clássica”. Ultimamente, voltou ao sambista Noel Rosa (1910-1937), “atual como a bossa nova”.

Em matéria de modernidades eletrônicas, estacionou na bossa já não tão nova do computador. Gullar não quer rima com celular e, volta e meia, pede a Claudia que lhe explique esse negócio de Twitter, iPod, e-book. Prefere os pincéis com que pinta quadros de inspiração morandiana -sem um pingo de pretensão, esclarece, jamais para vender ou expor, apenas para se distrair: “Pintando, eu fico fora dos problemas, não penso se a Dilma vai ser presidente, e sim qual é a cor que eu ponho, o azul ou o verde”. Nas paredes, seus quadros convivem com as obras de alguns dos maiores artistas brasileiros do século passado: o pintor gaúcho Iberê Camargo (que pintou seu retrato), o ítalo-brasileiro Alfredo Volpi e o gravador paraense Osvaldo Goeldi.

Aposentado como jornalista e como técnico em comunicação, o poeta viaja pouco -e nunca de avião. Não é só porque os aviões caem, ele explica, é também por causa do estresse dos aeroportos. Voltar a Paris é ideia que não o tenta -“ver o Louvre pela décima vez?”, desdenha. Problema maior é não poder revisitar sua distante São Luís, onde vivem seis dos oito irmãos, ou ir ao Recife para ver o filho Paulo. Luciana, os netos (menos dois, que moram no Rio) e os bisnetos ele vê quando, de carro, vai a São Paulo. Sem muita efusão física, diz a filha, é pai e avô carinhoso. E discreto. Não sai contando, mas o irmão Newton o revela um homem generoso a ponto de dar casa à empregada: “Se alguém perto do José [como o poeta é chamado pelo irmão] tem problema, é problema dele também”. É também Newton quem conta que Gullar se recusou a pedir reparação financeira, a chamada “bolsa ditadura”, pelo que passou sob o regime militar: “Ele diz que não é justo, pois nunca perguntou a ninguém se devia tomar as atitudes políticas que tomou”.

Gullar não recebe e, quando sai, é para um cinema com Claudia ou para se juntar a uma de suas patotas, formadas faz décadas. Uma se aglutina em torno de Ceres Feijó, que promove a comemoração dos aniversários de cada um. A outra é a dos “comunas”, como diz, um grupo de antigos militantes de esquerda com percurso não muito diferente do seu, entre os quais os filósofos Leandro Konder e Carlos Coutinho, os jornalistas Armênio Guedes e Milton Temer e o advogado Marcelo Cerqueira. Os “comunas” se reúnem à sombra do cineasta Zelito Viana e de sua mulher, Vera, para rega-bofes batizados de “As Comuníadas”.

PESO PENA

Nessas ocasiões, bebe apenas cerveja ou moderadas taças de vinho. Não suporta o gosto de uísque. E põe ainda mais comedimento no comer. Sem gula, Gullar está pesando 56 quilos, sete a menos do que deveria ter quem mede 1,70 metro. Seu Newton e dona Alzira [seus pais] eram magros, mas a genética não explica tudo. Na juventude, para driblar uma gastrite, habituou-se a comer pouco. Curado, manteve a dieta. Algum tempo atrás, no “check-up” anual, a médica achou tão bons os seus exames que lhe perguntou o que comia. “Eu não como”, riu Gullar.

É quase isso. De tanto vê-lo pedir para embrulhar metade do espaguete com camarões no La Trattoria, restaurante em Copacabana aonde vão frequentemente, Claudia o apelidou de “meia porção”. Em casa, come basicamente a boia maranhense que ensinou Maria das Dores a fazer -ensopado com quiabo, carne assada com molho ferrugem, feijão com arroz, carne-seca. De manhã, como no poema de Manuel Bandeira, prepara ele mesmo o seu café. O poeta tem lá seus talentos culinários. A filha Luciana se lembra dele a recolher a nata acumulada no gargalo das garrafas de leite e a batê-la até virar manteiga.

Vai bem, nota-se, a saúde do homem que, na chegada ao Rio, aos 21 anos de idade, descobriu ter uma tuberculose, curada em cinco meses. O Hollywood com filtro foi abandonado há 24 anos. Mas o filho do centroavante Newton, de uma gloriosa seleção maranhense, passa ao largo de exercícios físicos. “Eu já subo pela escada”, alega o morador do segundo andar, “e vivo andando pela rua”. Essas caminhadas o levam há anos ao salão onde Darcy, cabeleireiro de mulheres, administra o seu característico corte Chanel. “A Claudia diz que ele tem uma cabeça moderna”, lembra Luciana -e não há dúvida de que a companheira do poeta não se refere apenas às alvíssimas melenas com que ele está chegando a seus 80 anos.

Compartilhar

Livraria da Folha

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s