Derrubar os juros

02/12/2016 02h00

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Com queda de 0,8% no terceiro trimestre, o PIB manteve a ininterrupta trajetória de retração iniciada no final de 2014. Contrariando prognósticos, a recessão se anuncia como a mais longa da história —e em breve poderá também ser a mais profunda, uma vez que a perda produção atinge 8,3%, percentual similar ao do pior momento já enfrentado, de 1981 a 1983.

A expectativa de que o governo de Michel Temer reverteria a trajetória declinante, dando margem para um crescimento mais significativo em 2017, vai se dissolvendo.

Nesse quadro, em que se verifica alta sensível do desemprego, redução de renda e excesso de endividamento de famílias e empresas, é quase indispensável uma reação firme do Banco Central, com corte rápido dos juros.

O Comitê de Política Monetária (Copom), porém, optou por uma redução tímida da Selic —apenas 0,25 ponto percentual, para 13,75%. No entendimento do BC, os preços dos serviços ainda caem lentamente, as reformas para colocar ordem no Orçamento federal precisam se consolidar e o ambiente externo piorou com a eleição de Donald Trump nos EUA.

De fato, juros maiores no exterior desvalorizam o real e causam impacto inflacionário, dificultando o esforço de fazer a inflação convergir para a meta de 4,5% em 2017.

O problema é que a atual crise, por sua duração e profundidade, foge ao padrão histórico brasileiro e desafia interpretações convencionais. Desta vez não se trata de uma queda cíclica, que pode ser facilmente vencida.

Há um componente mais estrutural, ocasionado pelo alto peso das dívidas. A reação de empresas e famílias é poupar o máximo possível, de modo a restaurar sua saúde financeira.

Instaura-se um círculo vicioso, o que agrava os problemas financeiros. A incerteza quanto à saúde das contas públicas e do ambiente político torna o quadro mais sombrio. As receitas caem, mas as dívidas ficam, elevando cada vez mais o risco da insolvência.

Em contextos como esse é preciso quebrar a espiral descendente por meio de medidas que restabeleçam a confiança e enfrentem o âmago do drama financeiro. A redução mais rápida dos juros precisa ser considerada. A inflação hoje já não é a grande ameaça. O risco maior é o país continuar patinando numa recessão sem fim.

editoriais@grupofolha.com.br

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