Eleição no Rio: Freixo merece seu meio-voto. Mas meio voto não existe

Alex Antunes28 de outubro de 2016

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Estou sofrendo há duas semanas para escrever algo sobre a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Sofrendo, não porque não haja elementos muito interessantes em jogo – isto é, assunto. Mas porque escrever sobre política é, quase inevitavelmente, se posicionar. E a situação eleitoral do Rio é, ao mesmo tempo, muito ilustrativa de alguns dos mais intensos embates de hoje e, ao mesmo tempo, muito peculiar. Ou seja, alguma compreensão exige um esforcinho adicional de distanciamento.

Que tipo de vácuo político levou a um segundo turno de outsiders, ainda que ousiders totalmente antagônicos, como Crivella e Freixo? Eles têm algo a oferecer, politicamente? Do ponto de vista do bom senso, pareceria claro escolher Marcelo Freixo, um candidato digno, com um histórico de respeito. Incluindo a sua saída do PT, já em 2005. Quando isso pareceria maluquice, de um ponto de vista eleitoreiro.

Freixo e Crivella estão em campos opostos numa questão central quanto à violência do Rio: as milícias. O irmão de Freixo foi assassinado em 2006 por milicianos, e ele chegou a sair do país numa época em que as ameaças de morte se acirraram. Freixo inspirou o personagem do deputado estadual que preside a CPI que investiga as milícias, em Tropa De Elite 2.

Já Marcelo Crivella é um político crescido à sombra do poder das igrejas neopentecostais, e do PT. Num mesmo vídeo, ele conta ter sido obrigado a entrar na política pela Igreja Universal, de seu tio Edir Macedo, e ter sido ajudado a espalhar a religião pelo mundo por Lula, que escreveu cartas para diminuir a resistência às estratégias internacionais invasivas da igreja (no caso ele cita especificamente Barbados e Zâmbia, onde a Universal ganhou concessões de rádio e TV, mas o alcance do esforço “missionário” no mundo foi bem maior). Senador da base petista, foi ministro da pesca de Dilma.

Milicianos declararam apoio a Crivella – no mínimo, por oposição automática a seu inimigo Freixo. Mas é lícito acreditar que Crivella terá uma postura pragmática e flexível em relação às milícias, assim como foi a do casal de Anthony e Rosinha Garotinho, também populista neopentecostal, que governou o estado na virada do século, e hoje é seu apoiador. Garotinho quer cargos no governo municipal, e apoio na sua campanha para voltar ao governo estadual, em 2018.

Absolutamente todo esse cenário foi engendrado pelas escolhas do PT. Ou, mais especificamente, por escolhas politicamente suicidas que a direção nacional do PT impôs ao estado, ora subordinando o partido ao PDT (derrotando uma liderança histórica local, Vladimir Palmeira, que queria uma candidatura própria em 1998, quando Benedita da Silva abandonou o senado para sair vice de Garotinho), ora ao PRB de Crivella (Lula presidente, em 2006, dividiu seu apoio nas eleições a governador entre Crivella e Palmeira, que acabou em quarto lugar – quem venceu foi Sérgio Cabral), ora ao PMDB (apoiando a reeleição de Cabral em 2010).

As ótimas relações de Lula com o PMDB fluminense e carioca, costuradas em torno dos royalties do petróleo e da realização da Copa e da Olimpíada, ajudaram a derrotar candidaturas de esquerda não-petista, como a de Fernando Gabeira a prefeito (em 2008, vencido por Eduardo Paes). Ou seja, de certa forma, tanto Crivella quanto Freixo se afirmaram no vácuo do PT. O que seria um representante certo no segundo turno deste ano (mesmo com o colapso financeiro estadual e municipal), o do PMDB, foi torpedeado pela teimosia de Paes. Que insistiu em tentar fazer prefeito seu secretário de governo, Pedro Paulo – ele acabou fulminado por um episódio de agressão à sua ex-mulher, em 2010.

Todo esse cenário seria naturalmente favorável a Freixo – se não fosse o “custo esquerda” e, mais especificamente, o “custo 2013” e o “custo governista”. O custo esquerda é fácil de entender. Partido criado para acolher ex-petistas, o PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, tem um programa marxista datadão, quase ingênuo. E grupos internos que insistem em fazer manifestações patetas, como as pró-Maduro, na Venezuela.

O “custo governista” é um pouco mais complexo; o problema é que mesmo a esquerda não-governista, como o PSOL e a Rede, foi capturada, no impeachment de Dilma, pela narrativa do “golpismo” (no caso da Rede, personalidades do partido, como o senador acriano Randolfe Rodrigues, e o deputado federal fluminense Alessandro Molon, se contrapuseram à orientação de Marina Silva, e apoiaram o PT). O custo 2013 diz respeito à relação flutuante de Freixo e do PSOL com a tática black bloc.

Ou seja, mesmo para quem ainda acredita num campo de esquerda, Freixo e o PSOL não estão em um lugar claro, acabando por atrair antipatias dos dois lados. A pancadaria que já havia ocorrido no primeiro turno entre Freixo, Molon e Jandira Feghali (essa da mais obviamente linha auxiliar do PT, o PC do B) amplificou a crise desse campo. Freixo, de certo modo, é o candidato da perplexidade da esquerda. Não bastasse o PSOL ser um sub-PT, pela primeira vez alcançando um certo protagonismo majoritário sem a presença de seu modelo, finalmente colapsado, a candidatura de Freixo não conseguiu se comunicar com o conjunto da população, traduzindo mais confusão do que assertividade.

Encapsulada entre ataques de esquerda (aqui um exemplo interessante, uma crítica anarquista teoricamente bem-fundamentada) e de direita; fulminada por defesas do voto nulo, como a feita pela organização dos garis da cidade, o Círculo Laranja (que tem sido bastante fetichizada pela militância), a candidatura Freixo parece prestes a naufragar.

Eu mesmo, se tivesse que votar no Rio, estaria dividido. Por um lado, entendo que uma candidatura de esquerda não consiga dar todas as respostas, e poderia votar nela em confiança, como uma espécie de laboratório social. Esperando que Freixo encontrasse no processo respostas políticas mais dignas deste século, mesmo sem as ter a priori.

Mas eu sou um elitista cultural – no fundo, gosto do “fator Guanabara”, aquela sensação de suficiência hipster-esquerdista que emana da Zona Sul da cidade, e que me levaria a tentar bloquear essa vitória final da cultura caótica “da baixada”, a que alimenta neopentecostais e milicianos, assim como alimentou a banda (mais) podre do PMDB, a de Eduardo Cunha e do clã Picciani. Talvez eu fetichizasse Freixo, como expoente da nova bossa nova velha.

Por outro lado, mesmo sem acreditar na revolução dos garis, talvez eu me visse tentado a votar nulo, e permitir que um rolo compressor passasse finalmente não só sobre o PT, mas sobre todas as suas linhas auxiliares, as mais e as menos deliberadas. Incluindo os pseudo-contemporâneos apoiadores de Freixo do Fora do Eixo e da Mídia Ninja, resíduo das jornadas de 2013 que se venderam ao PT.

Não por colocar absolutamente qualquer expectativa positiva sobre Crivella, mas por duvidar dos dois mesmo. Chega a ser engraçado esse momento em que a candidatura Freixo tem, muito a contragosto (de parte a parte) a adesão da grande mídia, como a Globo e a Veja, que tem lá suas razões para temer o ascenso dessa “lúmpen elite” neopentecostal a que os anos PT deram passagem.

Por sorte não voto no Rio – e estou poupado de passar por todo o mal estar que esse primado da “perplexidade de esquerda” provoca (além da usual sordidez da direita, com escaramuças baixas como a que envolveu ontem a viúva do pedreiro assassinado por policiais da UPP da favela da Rocinha, Amarildo). Feitas as contas, Freixo mereceria meio-voto. Só que meio-voto não existe.

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