Brasil tem mais mortes violentas do que a Síria em guerra, mostra anuário

28/10/201606h37

Bruno Bocchini – Repórter da Agência Brasil

O Brasil registrou mais mortes violentas de 2011 a 2015 do que a Síria, país em guerra, em igual período. Os dados, divulgados hoje (28), são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Foram 278.839 ocorrências de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial no Brasil, de janeiro de 2011 a dezembro de 2015, frente a 256.124 mortes violentas na Síria, entre março de 2011 a dezembro de 2015, de acordo com o Observatório de Direitos Humanos da Síria.

“Enquanto o mundo está discutindo como evitar a tragédia que tem ocorrido em Alepo, em Damasco e várias outras cidades, no Brasil a gente faz de conta que o problema não existe. Ou, no fundo, a gente acha que é um problema é menor. Estamos revelando que a gente teima em não assumi-lo como prioridade nacional”, destacou o diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima.

Apenas em 2015, foram mortos violentamente e intencionalmente 58.383 brasileiros, resultado que representa uma pessoa assassinada no país a cada 9 minutos, ou cerca de 160 mortos por dia. Foram 28,6 pessoas vítimas a cada grupo de 100 mil brasileiros. No entanto, em comparação a 2014 (59.086), o número de mortes violentas sofreu redução de 1,2%. “A retração de 1,2% não deixa de ser uma retração, mas em um patamar muito elevado, é uma oscilação natural, de um número tão elevado assim”, ressaltou Lima.

Das 58.383 mortes violentas no Brasil em 2015, 52.570 foram causadas por homicídios (queda de 1,7% em relação a 2014); 2.307 por latrocínios (aumento de 7,8%); 761 por lesão corporal seguida de morte (diminuição de 20,2%) e 3.345 por intervenção policial (elevação de 6,3%).

Estados

Sergipe, com 57,3 mortes violentas intencionais a cada grupo de 100 mil pessoas, é o estado mais violento do Brasil, seguido por Alagoas (50,8 mortes para cada grupo de 100 mil) e o Rio Grande do Norte (48,6). Os estados que registraram as menores taxas de mortes violentas intencionais foram São Paulo (11,7 a cada 100 mil pessoas), Santa Catarina (14,3) e Roraima (18,2).

“Os estados em que as mortes crescem, com exceção de Pernambuco, são os que não têm programa de redução de homicídios. Você percebe que quando há política pública, quando você prioriza o problema, são conseguidos alguns resultados positivos”, disse Lima.

As unidades da Federação que mais aumentaram o número de mortes violentas foram o Rio Grande do Norte (elevação de 39,1%), Amazonas (19,6%), e Sergipe (18,2%). Os que mais diminuíram foram Alagoas (queda de 20,8%), o Distrito Federal (-13%), e o Rio de Janeiro (-12,9%).

“Alagoas, estado que mais reduziu o número de mortes, é um caso muito interessante. É o único que tem um programa, em parceria inclusive com o governo federal, há alguns anos. Uma parceria que envolve não só a Força Nacional, mas outras dimensões de equipamentos. O estado que tem integração formal de diferentes entes da Federação é aquele que conseguiu reduzir com mais intensidade”, disse Lima.

De acordo com o diretor-presidente do fórum, a grande maioria dos oito estados que têm programas de redução de homicídios teve diminuição no número de mortes violentas: Alagoas (-20,8%), Bahia (-0,9%), Ceará (-9,2%), Distrito Federal (-13%), Espírito Santo (-10,7%), Pernambuco (+12,4%), Rio de Janeiro (-12,9%), e São Paulo (-11,4%).

Letalidade policial

De acordo com o anuário, a cada dia, pelo menos 9 pessoas foram mortas por policiais no Brasil em 2015, resultando num total de 3.345 pessoas, ou uma taxa de 1,6 morte a cada grupo de 100 mil pessoas. O número é 6,3% superior ao registrado no ano anterior. São Paulo foi o estado com o maior número de pessoas mortas por policiais em 2015: 848. As maiores taxas de letalidade policial registradas no último ano foram nos estados do Amapá (5 para cada grupo de 100 mil pessoas), Rio de Janeiro (3,9) e de Alagoas (2,9). Considerando-se os números absolutos, São Paulo e o Rio de Janeiro concentram sozinhos 1.493 mortes decorrentes de intervenções policiais, ou 45% do total registrado no país.

A taxa brasileira de letalidade policial (1,6) supera a de países como Honduras (1,2) e África do Sul (1,1). “Isso demonstra um padrão de atuação que precisa ser revisto urgentemente. Esse padrão faz com que você tenha [no Brasil] o número de pessoas mortas por intervenção policial como o mais alto do mundo. Nossa taxa de letalidade policial é maior do que a de Honduras, que é considerado o país mais violento em termos proporcionais, em termos de taxa, do mundo”.

“Esse é um problema que continua muito sério no país e não está submetido especificamente à dimensão dessa nova realidade, seja a lei de terrorismo ou outras questões. Mas estamos com um problema muito agudo do padrão de trabalho das polícias”, destacou Lima.

O total de policiais vítimas de homicídios em serviço e fora do horário do expediente também é elevado no Brasil. Em 2015, foram mortos 393 policiais, 16 a menos do que no ano anterior. Proporcionalmente, os policiais brasileiros são três vezes mais assassinados fora do horário de trabalho do que no serviço: foram 103 mortos durante o expediente (crescimento de 30,4% em relação a 2014) e 290 fora (queda de 12,1% em relação a 2014), geralmente em situações de reação a roubo (latrocínio).

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que está em sua 10ª edição, será lançado no dia 3 de novembro pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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Depoimento: “Fui condenado por ser gay há 42 anos pelo governo britânico”

28/10/201611h00

Andrew Jacobs

  • David Henderson/ iStock

    George Montague (dir.) participa da Parada Gay de Londres em junho de 2014George Montague (dir.) participa da Parada Gay de Londres em junho de 2014

George Montague foi várias coisas durante sua longa e colorida vida: veterano da Segunda Guerra Mundial, empresário, pai, avô, chefe dos escoteiros –e criminoso. Em 1974, ele foi condenado por indecência grave de acordo com uma lei britânica que visava os homens gays.

Na semana passada, o governo anunciou que emitiria um perdão póstumo coletivopara milhares desses homens, mas os que ainda vivem –cerca de 65 mil– teriam de se inscrever. Montague, que vive em Brighton, no Reino Unido, diz que quer um pedido de desculpas, e não um perdão.

Abaixo, o relato de George Montague ao repórter Andrew Jacobs:

——

Eu sou o velhinho mais feliz do mundo, e todos os dias digo isso pelo menos para uma pessoa, mas não consigo tirar da cabeça essa “indecência grave”. Por algum motivo, eu simplesmente acordei um dia aos 93 anos e disse que teria de fazer algo a respeito.

Se você aceita o perdão, admite que foi culpado. Como posso ser culpado por nascer do jeito que nasci? Minha mãe me fez um homossexual!

As rodas da política giram muito devagar. Vai levar um ou dois anos, mas vamos ter nossas desculpas. Eu aguardo meu centésimo aniversário. E quando esse dia chegar esta velha rainha receberá uma carta da verdadeira rainha.

Nasci um menino pobre, da classe trabalhadora, meu pai era jardineiro do proprietário de terras local e minha mãe era lavadeira.

Não fui muito bem na escola. Era virtualmente analfabeto, mas muito bom com as mãos e me tornei um moldador.

Quando tinha 15 ou 16 anos, pensei que havia algo muito errado comigo, que eu era diferente dos outros. Mas nessa idade você sublima –simplesmente não deixa que a coisa tome o controle. Trabalha duro, esquece isso e encontra uma namorada.

A palavra “homossexual” não era usada, simplesmente. Era uma aberração, uma coisa terrível. As pessoas automaticamente pensavam que você fosse um pedófilo, e isso era muito doloroso. Então você fazia tudo para esconder.

A guerra estava em curso, tudo estava sendo bombardeado, e eu quis contribuir. Fui aceito pela Força Aérea Real e no início trabalhei em uma fábrica consertando aviões. Queria ser um membro da tripulação, mas fui recusado.

Tornei-me instrutor de educação física, treinando pilotos da Batalha da Inglaterra, e mais tarde entrei em um dos primeiros comboios que navegou pelo canal de Suez, enquanto a luta continuava.

Minha personalidade se formou na Associação de Escoteiros. Aprendi a ser totalmente honesto: “Nunca diga uma mentira”. Mas a pressão para me casar, especialmente de minha mãe, tornou-se intensa, e quando eu tinha 35 anos decidi me casar com Vera, que aceitava que eu fosse gay.

Eu fazia tudo para torná-la feliz, e a amava, mas ainda amava os namorados que eu tinha de vez em quando, e ela aceitava tudo isso. Tivemos três filhos, e depois a parte do sexo não foi mais tão importante.

Tivemos uma reunião de família e eu contei a meus filhos: “Desculpem, crianças, sua mãe e eu vamos viver separados porque seu pai é gay”. E minha filha disse: “Oh, papai, sabemos disso há anos”.

Se você fosse gay e vivesse em uma pequena aldeia rural, a única maneira de encontrar outros homens era ir aos banheiros públicos. As pessoas escreviam poemas nas paredes, ou seus números de telefone. Não faziam nada feio; apenas usavam os olhos, conversavam e conheciam pessoas.

A polícia costumava subir no mezanino e observar as pessoas lá embaixo.

A polícia também pegava um cara jovem e vulnerável que tivesse feito alguma coisa errada e o levava à delegacia e o ameaçava. Ele dava nomes. Era chamada a lista das bichas.

Meu nome estava na lista, por isso eu tomava muito cuidado.

Mas um dia em 1974 eu estava numa cabine quando a polícia chegou, batendo na porta. Eu estava sozinho e não fazia nada, mas não importava.

Fui condenado por indecência grave por um juiz local e obrigado a renunciar dos escoteiros depois de 40 anos de trabalho com meninos muito deficientes. Naquele tempo, se você fosse gay, eles supunham que você fosse um pedófilo, o que não era verdade, é claro. Era muito injusto.

Cerca de três anos antes da morte de minha mulher, conheci Somchai em um bar em Londres. Apaixonei-me por ele na primeira manhã em que acordei ao seu lado. Minha mulher também gostava dele, e um dia ela disse: “Já o tive esse tempo todo, você pode ficar com ele agora”. Somchai e eu estamos juntos há 21 anos em total harmonia, e ficaremos juntos até o dia de nossa morte.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

COMENTÁRIOS 1

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  1. Avatar de Marajohara

    Marajohara

    30 minutos atrás

    E ainda deu para ser feliz…se tivesse sido condenado pelo EI, não estaria aqui, aos 93 anos, para contar a história. Mas ainda dá tempo, Londres está tomada. E quem abriu as portas foram os ingleses. Vai entender o que esse povo quer da vida.

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Maior parque marinho do mundo é criado no oceano Antártico

28/10/201611h23

Por Colin Packham

SYDNEY (Reuters) – Vinte e quatro países e a União Europeia concordaram nesta sexta-feira em criar o maior parque marinho do mundo no oceano Antártico, cobrindo uma área imensa de 1,55 milhão de quilômetros quadrados de oceano.

A Comissão para a Conservação dos Recursos da Vida Marinha Antártica, que se reuniu em Hobart, na Austrália, disse que o parque marinho do mar de Ross será protegido da pesca comercial durante 35 anos.

O mar de Ross é visto como um dos oceanos ecologicamente mais importantes do mundo. O santuário irá abranger mais de 12 por cento do Antártico, que abriga mais de 10 mil espécies, inclusive a maioria dos pinguins, baleias, aves marinhas, lulas-colossais e merluzas-negras antárticas do planeta.

A pesca será totalmente proibida em 1,1 milhão de quilômetros quadrados do mar de Ross, e áreas designadas como zonas de pesquisa irão permitir alguma pesca de krill e peixe-serra.

Cientistas e ativistas descreveram o acordo como um marco histórico nos esforços globais para proteger a diversidade marinha.

“A Área Marinha Protegida da Região do mar de Ross irá salvaguardar um dos últimos ambientes oceânicos selvagens intactos do planeta – lar de uma biodiversidade marinha incomparável e comunidades florescentes de pinguins, focas, baleias, aves marinhas e peixes”, disse o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, em um comunicado.

Cientistas dizem que o parque marinho também irá proporcionar um entendimento maior do impacto da mudança climática.

A Rússia concordou com a proposta, mesmo depois de bloquear propostas de conservação em cinco ocasiões anteriores.

A comissão de 25 membros, que inclui Rússia, China, Estados Unidos e UE, exige apoio unânime para suas decisões.

“Todos eles têm interesses econômicos e políticos diferentes, e fazer com que todos se alinhem – especialmente no contexto de haver interesses econômicos divergentes – é um desafio e tanto”, disse Evan Bloom, um diretor do Departamento de Estado dos EUA e líder da delegação norte-americana, à Reuters.

O que faremos com o Aquífero Guarani?

por Rui Daherpublicado 25/10/2016 05h04
Proteger a biodiversidade deveria ser um dos princípios basilares de quem deseja manter o Brasil como potência agropecuária
Agência Brasil
Aquífero Guarani

Um gigante na linha de mira da privatização?

O fato de o Brasil ter chegado, neste século, a uma potência agropecuária mundial deveu-se à extensão de seu território, às condições edafoclimáticas de sua posição geográfica e a uma vocação negocial e laboral secular, o que permitiu alta diversificação de culturas para os mercados interno e externo.

Enquanto perduraram os períodos extrativistas e monocultores, a agricultura brasileira era forçada a abrir portas e pernas ao comércio internacional, dominado pelo hemisfério norte que cedo se industrializou e agregou tais valores às suas ações imperialistas. Seus alvos estavam em nações sul e centro-americanas e africanas.

Aqui, exceto em raros períodos, pouco aconteceu através de ações de Estado planejadas e com vocação distributiva. O vetor negocial e empresarial foi realizado na raça e no peito, este, muitas vezes, fardado com a camiseta do Vasco, na faixa e em remelexos de gafieira, que assim são nossas leis quando simpatizam com alguém.

Tenho insistido. Para manter e expandir essa expressividade por mais algumas décadas, pelo menos até a eclosão da III Guerra Mundial, a agropecuária brasileira precisa firmar três posições: coragem para baixar custos com a inclusão de insumos naturais em seus manejos; priorizar a agricultura familiar para mais inseri-la no agronegócio; e defender a biodiversidade com unhas e dentes. De muito importante, nada mais, pois ou está feito ou não depende de nós.

São justamente esses os temas basilares da agropecuária que temos levado como Deus fez a mandioca, de qualquer jeito ou, quando não, dando-lhe formas que atendam interesses políticos paroquiais e geopolíticos externos.

O Aquífero Guarani, por exemplo. Para alguns estudiosos o maior manancial de água doce subterrâneo do planeta. Descoberto em 1996 pelo geólogo uruguaio Danilo Anton, é uma dádiva eminentemente “Mercosulina”, pois localizada em Brasil (69%), Argentina (21%), Paraguai (5%) e Uruguai (5%).

Com área total de 1,2 milhão de km² e capacidade de abastecer 400 milhões de pessoas, os 840 mil km² brasileiros espalham-se por oito estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Seria de grande importância para a estratégia futura do País, certo? Não muito.

Há décadas, grandes conglomerados multinacionais se interessam em explorar trechos do manancial que atendem às suas posições logísticas e produtivas. Preocupados, em 2003, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Banco Mundial criaram um fundo de apoio para Proteção Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, e nele incluíram o Aquífero Guarani.

Recentemente, na levada que a política neoliberal sugeria no passado, agora oficializada por um golpe de Estado, alguns departamentos e técnicos da Agência Nacional de Águas (ANA), sob condição de anonimato, têm revelado a presença do aquífero em lista dos bens públicos privatizáveis.

Claro que as folhas e telas cotidianas, apoiadoras do impeachment da eleita presidente Dilma Rousseff, não têm tratado do assunto, ocupadas que estão em arrecadar as generosas verbas de publicidade que mereceram pela “mãozinha” dada (sugiro a excelente matéria de Sergio Lírio na mais recente edição impressa de CartaCapital).

Em encontros reservados, o presidente empossado pelo golpe e grandes empresários discutem incluir concessões de até mais de 100 anos para exploração do Aquífero Guarani, dentro do Programa de Parceria e Investimento (PPI) do novo governo da velha camarilha. Nestlé e Coca-Cola estão na parada. Resta conhecer a posição do Ministério do Meio Ambiente, hoje comandado por Sarney Filho (PV-MA).

Governos brasileiros entreguistas agem da mesma forma que clubes de futebol quebrados. Vendem os principais craques ou as promessas do futuro.

Eleição no Rio: Freixo merece seu meio-voto. Mas meio voto não existe

Alex Antunes28 de outubro de 2016

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Estou sofrendo há duas semanas para escrever algo sobre a eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro. Sofrendo, não porque não haja elementos muito interessantes em jogo – isto é, assunto. Mas porque escrever sobre política é, quase inevitavelmente, se posicionar. E a situação eleitoral do Rio é, ao mesmo tempo, muito ilustrativa de alguns dos mais intensos embates de hoje e, ao mesmo tempo, muito peculiar. Ou seja, alguma compreensão exige um esforcinho adicional de distanciamento.

Que tipo de vácuo político levou a um segundo turno de outsiders, ainda que ousiders totalmente antagônicos, como Crivella e Freixo? Eles têm algo a oferecer, politicamente? Do ponto de vista do bom senso, pareceria claro escolher Marcelo Freixo, um candidato digno, com um histórico de respeito. Incluindo a sua saída do PT, já em 2005. Quando isso pareceria maluquice, de um ponto de vista eleitoreiro.

Freixo e Crivella estão em campos opostos numa questão central quanto à violência do Rio: as milícias. O irmão de Freixo foi assassinado em 2006 por milicianos, e ele chegou a sair do país numa época em que as ameaças de morte se acirraram. Freixo inspirou o personagem do deputado estadual que preside a CPI que investiga as milícias, em Tropa De Elite 2.

Já Marcelo Crivella é um político crescido à sombra do poder das igrejas neopentecostais, e do PT. Num mesmo vídeo, ele conta ter sido obrigado a entrar na política pela Igreja Universal, de seu tio Edir Macedo, e ter sido ajudado a espalhar a religião pelo mundo por Lula, que escreveu cartas para diminuir a resistência às estratégias internacionais invasivas da igreja (no caso ele cita especificamente Barbados e Zâmbia, onde a Universal ganhou concessões de rádio e TV, mas o alcance do esforço “missionário” no mundo foi bem maior). Senador da base petista, foi ministro da pesca de Dilma.

Milicianos declararam apoio a Crivella – no mínimo, por oposição automática a seu inimigo Freixo. Mas é lícito acreditar que Crivella terá uma postura pragmática e flexível em relação às milícias, assim como foi a do casal de Anthony e Rosinha Garotinho, também populista neopentecostal, que governou o estado na virada do século, e hoje é seu apoiador. Garotinho quer cargos no governo municipal, e apoio na sua campanha para voltar ao governo estadual, em 2018.

Absolutamente todo esse cenário foi engendrado pelas escolhas do PT. Ou, mais especificamente, por escolhas politicamente suicidas que a direção nacional do PT impôs ao estado, ora subordinando o partido ao PDT (derrotando uma liderança histórica local, Vladimir Palmeira, que queria uma candidatura própria em 1998, quando Benedita da Silva abandonou o senado para sair vice de Garotinho), ora ao PRB de Crivella (Lula presidente, em 2006, dividiu seu apoio nas eleições a governador entre Crivella e Palmeira, que acabou em quarto lugar – quem venceu foi Sérgio Cabral), ora ao PMDB (apoiando a reeleição de Cabral em 2010).

As ótimas relações de Lula com o PMDB fluminense e carioca, costuradas em torno dos royalties do petróleo e da realização da Copa e da Olimpíada, ajudaram a derrotar candidaturas de esquerda não-petista, como a de Fernando Gabeira a prefeito (em 2008, vencido por Eduardo Paes). Ou seja, de certa forma, tanto Crivella quanto Freixo se afirmaram no vácuo do PT. O que seria um representante certo no segundo turno deste ano (mesmo com o colapso financeiro estadual e municipal), o do PMDB, foi torpedeado pela teimosia de Paes. Que insistiu em tentar fazer prefeito seu secretário de governo, Pedro Paulo – ele acabou fulminado por um episódio de agressão à sua ex-mulher, em 2010.

Todo esse cenário seria naturalmente favorável a Freixo – se não fosse o “custo esquerda” e, mais especificamente, o “custo 2013” e o “custo governista”. O custo esquerda é fácil de entender. Partido criado para acolher ex-petistas, o PSOL, Partido Socialismo e Liberdade, tem um programa marxista datadão, quase ingênuo. E grupos internos que insistem em fazer manifestações patetas, como as pró-Maduro, na Venezuela.

O “custo governista” é um pouco mais complexo; o problema é que mesmo a esquerda não-governista, como o PSOL e a Rede, foi capturada, no impeachment de Dilma, pela narrativa do “golpismo” (no caso da Rede, personalidades do partido, como o senador acriano Randolfe Rodrigues, e o deputado federal fluminense Alessandro Molon, se contrapuseram à orientação de Marina Silva, e apoiaram o PT). O custo 2013 diz respeito à relação flutuante de Freixo e do PSOL com a tática black bloc.

Ou seja, mesmo para quem ainda acredita num campo de esquerda, Freixo e o PSOL não estão em um lugar claro, acabando por atrair antipatias dos dois lados. A pancadaria que já havia ocorrido no primeiro turno entre Freixo, Molon e Jandira Feghali (essa da mais obviamente linha auxiliar do PT, o PC do B) amplificou a crise desse campo. Freixo, de certo modo, é o candidato da perplexidade da esquerda. Não bastasse o PSOL ser um sub-PT, pela primeira vez alcançando um certo protagonismo majoritário sem a presença de seu modelo, finalmente colapsado, a candidatura de Freixo não conseguiu se comunicar com o conjunto da população, traduzindo mais confusão do que assertividade.

Encapsulada entre ataques de esquerda (aqui um exemplo interessante, uma crítica anarquista teoricamente bem-fundamentada) e de direita; fulminada por defesas do voto nulo, como a feita pela organização dos garis da cidade, o Círculo Laranja (que tem sido bastante fetichizada pela militância), a candidatura Freixo parece prestes a naufragar.

Eu mesmo, se tivesse que votar no Rio, estaria dividido. Por um lado, entendo que uma candidatura de esquerda não consiga dar todas as respostas, e poderia votar nela em confiança, como uma espécie de laboratório social. Esperando que Freixo encontrasse no processo respostas políticas mais dignas deste século, mesmo sem as ter a priori.

Mas eu sou um elitista cultural – no fundo, gosto do “fator Guanabara”, aquela sensação de suficiência hipster-esquerdista que emana da Zona Sul da cidade, e que me levaria a tentar bloquear essa vitória final da cultura caótica “da baixada”, a que alimenta neopentecostais e milicianos, assim como alimentou a banda (mais) podre do PMDB, a de Eduardo Cunha e do clã Picciani. Talvez eu fetichizasse Freixo, como expoente da nova bossa nova velha.

Por outro lado, mesmo sem acreditar na revolução dos garis, talvez eu me visse tentado a votar nulo, e permitir que um rolo compressor passasse finalmente não só sobre o PT, mas sobre todas as suas linhas auxiliares, as mais e as menos deliberadas. Incluindo os pseudo-contemporâneos apoiadores de Freixo do Fora do Eixo e da Mídia Ninja, resíduo das jornadas de 2013 que se venderam ao PT.

Não por colocar absolutamente qualquer expectativa positiva sobre Crivella, mas por duvidar dos dois mesmo. Chega a ser engraçado esse momento em que a candidatura Freixo tem, muito a contragosto (de parte a parte) a adesão da grande mídia, como a Globo e a Veja, que tem lá suas razões para temer o ascenso dessa “lúmpen elite” neopentecostal a que os anos PT deram passagem.

Por sorte não voto no Rio – e estou poupado de passar por todo o mal estar que esse primado da “perplexidade de esquerda” provoca (além da usual sordidez da direita, com escaramuças baixas como a que envolveu ontem a viúva do pedreiro assassinado por policiais da UPP da favela da Rocinha, Amarildo). Feitas as contas, Freixo mereceria meio-voto. Só que meio-voto não existe.

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Ursa polar de shopping center chinês mostra sinais de declínio mental, dizem ativistas

27/10/201615h56

PEQUIM (Reuters) – Uma ursa polar de três anos que é mantida no viveiro de um shopping center no sudoeste da China, e que está no centro de uma polêmica de direitos dos animais, está mostrando sinais de declínio mental, disseram grupos de defesa animal.

A ursa, chamada Pizza, atraiu a atenção da mídia noticiosa internacional depois que a entidade Animals Asia, sediada em Hong Kong, publicou um vídeo em seu site em julho que mostra visitantes do shopping de Guangzhou tirando fotos da ursa deitada de lado em um habitat decorado em tons de azul. O grupo chamou Pizza de “a ursa trágica que sofre com selfies”.

Na terça-feira, a entidade Humane Society International (HSI) divulgou um vídeo de Pizza que disse evidenciar “comportamentos estereotípicos preocupantes, como balançar a cabeça e perambular repetitivamente, sinais de frustração e declínio mental”.

A organização e três grupos chineses de direitos dos animais realizaram uma coletiva de imprensa também na terça-feira pedindo o fechamento do viveiro do Grandview Mall.

Yu Hongmei, fundador da Associação de Proteção Animal VShine, sediada em Dalian, disse na coletiva que “um shopping center não é lugar para se exibir animais”.

O jornal britânico The Telegraph, a revista TIME e outros veículos de mídia globais também classificaram Pizza como “a ursa polar mais triste do mundo”.

(Por Reuters Tele

Juízes entram com representação contra Renan Calheiros no Conselho de Ética

27/10/201616h15

Mariana Jungmann – Repórter da Agência Brasil

Um grupo de cinco juízes entregou hoje (27) uma representação contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), à Secretaria Geral da Mesa da Casa. Os magistrados querem que a conduta de Calheiros em relação ao juiz federal Vallisney de Souza seja avaliada pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar e sejam adotadas as “sanções cabíveis”.A representação foi motivada pelo fato do presidente do Senado ter chamado Souza de “juizeco” em entrevista coletiva após a Operação Métis. A operação resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão nas dependências do Senado, com autorização de Vallisney de Souza.”Nós entendemos que a palavra por si só não toma essa dimensão. Toma de onde vem, como vem, e no momento em que veio. A gente entende que a providência que deve ser adotada no caso de uma decisão de um juiz é a via recursal. Os poderes Judiciário, Executivo e Legislativo são independentes e harmônicos entre si. Esses são os pilares da nossa democracia. Então não nos parece razoável que se utilize de adjetivação e de palavras que minorem o magistrado e a magistratura”, explicou um dos representantes do grupo, o juiz da 10ª Vara Penal de Pernambuco, Luiz Rocha.O pedido foi recebido pela Mesa Diretora do Senado e deverá ser entregue primeiro ao presidente do Conselho de Ética, senador João Alberto Souza (PMDB-MA), que vai decidir se arquiva ou dá prosseguimento à denúncia. A representação, no entanto, corre o risco de não ser sequer conhecida pelo presidente do Conselho, em razão de erro formal porque os juízes não são parlamentares e nem representantes de partidos políticos. Nesse caso, eles deveriam ter encaminhado uma denúncia e não uma representação, que é de prerrogativa exclusiva desses dois grupos.Segundo o juiz Luiz Rocha, o pedido pretende que seja avaliado se existiu “excesso” de Renan e “afastamento do decoro” quando ele se referiu ao juiz nesses termos, durante a entrevista coletiva. “E possa então tomar a decisão que ela tenha que tomar. Seja punir, seja arquivar, a competência é dela [comissão de ética]. O que nós não poderíamos é, em função de uma ofensa praticada, adjetivar também o cidadão do senador, a pessoa do senador ou o próprio Senado. Isso nós não poderíamos fazer”, afirmou.