Em suas páginas no Facebook, Cunha, Maranhão e Renan parecem viver em outro Planeta

6 de maio de 2016

Assim que soube da liminar de Teori determinando o afastamento de Cunha da Câmara, na quinta (6), por volta de 8 da manhã, fui ao Facebook de Eduardo Cunha, Waldir Maranhão, o novo presidente da Câmara e recém-chegado à ribalta da crise política, e de Renan Calheiros, o presidente do Senado e agora segundo homem na linha sucessória no caso de Temer assumir. Fui atrás de pistas sobre como seriam suas reações diante de um novo desdobramento da nossa prolongada crise política. Se diriam algo, emitiriam algum sinal para seus (não muitos, é verdade) seguidores.

 Na de Cunha (241 mil curtidas) me deparei com a imagem de um sol brilhando e uma mensagem: “E o Deus de paz seja com todos vóz. Amém. Romanos 15:33”. E só. Postada às seis da manhã, quando possivelmente o deputado já sabia de seu destino imediato, me surpreendeu, porém, os comentários das primeiras horas: quase todos contrários ao deputado naquele tom sarcástico que caracteriza a expressão de opiniões nas redes sociais. Um dia depois, na sexta (7), o tom dos comentários havia mudado, agora, a imensa maioria em louvor ao deputado. E uma nova mensagem oficial, contra o fundo nublado de um céu por onde escapa um raio de luz: “Eis que procura pretexto contra mim, e me considera como inimigo. Jô 33:10”. Para o leitor que busca informações, muito pouco, é claro. Enigma.

Pulei para a página de Waldir Maranhão (14 mil curtidas), o político do PP do Maranhão e que, de súbito, fora alçado aos holofotes. Quem é ele? Com a notícia-bomba do STF já dominando as redes sociais e a TV já mantendo ao vivo um helicóptero sobre a casa de Cunha, Maranhão postou às 9:29 uma mensagem em homenagem à língua portuguesa:  “uma das mais belas do mundo”. Diante da fogueira do momento político, Maranhão lembrou a seus leitores que o 5 de maio era o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura. O primeiro comentário do post não lhe foi favorável. “Gente para onde vamos? Cai um sujo e lá vem outro.”, deixada pela leitora Lucineti, de Itaiatuba, cuja foto no face é o de uma criança. Já na sexta (6), no momento em que escrevia este post, Maranhão adicionou um nova mensagem, dizendo que “O Maranhão é meu lar, minha terra”. Seria uma espécie de charada? O que pensaria ele diante de seu destino imediato e o do país, de tê-lo como presidente da Câmara? Nada.

Fui então espiar a página do Renan (93 mil curtidas), presidente do Senado e agora o primeiro homem na linha sucessória, no caso de um eventual governo Temer. Se já estava no enredo da crise – alvo de vários inquéritos na corte – com o afastamento de Cunha o senador alagoano se aproxima mais da fogueira da Lava Jato. Como lembrou o deputado Paulinho da Força em declaração à imprensa, a decisão do STF pode abrir precedente para a cassação de mais de 200 parlamentares. Quais pistas ou sinais nos trariam o facebook de Renan sobre isso? Nenhum. Sua página está há 8 meses sem atualização. A última notícia é de 2 de setembro de 2015, sobre Orçamento. Aqui o enigma é outro. Com mais de 105 milhões de brasileiros com acesso à internet e um uso cada vez mais intensivo de redes sociais, por que o presidente do Senado não atualiza sua página no Facebook? Obama, nos EUA, tem uma, com 48 milhões de curtidas. Hillary Clinton tem 3,4 milhões, atualizada diariamente. Trump tem 7,5 milhões.

No Brasil o uso das redes sociais por políticos vem aumentando, em especial nos momentos eleitorais. Os principais candidatos em 2014 – Dilma (2,8 milhões de curtidas), Aécio (4,5 milhões) e Marina (2,4 milhões) – usaram o Facebook e demais redes sociais com intensidade durante a campanha. O fazem até hoje. Afinal, precisaram de votos e possivelmente precisarão no futuro. São figuras públicas que, de algum modo, devem estar conectados minimamente com a chamada opinião pública, o que ela pensa, quer e se comunica.

A rede tem uma enorme capacidade de difusão (rápida) de informações. O seu uso permite aos políticos em geral (bem como a celebridades, empresas, grupos de interesse) terem maior controle sobre o tipo de informação que é difundida. Fotos preparadas no photoshop, bem cuidados vídeos de marketing, mensagens filtradas por grupos qualitativos de pesquisas, passam a circular na rede e dela saltam para os canais de TV (ainda a principal fonte de informação da população brasileira), jornais e revistas.

A não exposição da crise política em um momento agudo como o de agora nas páginas de Cunha, Maranhão e Renan é sobretudo um sintoma da distância que separa os representantes políticos da sociedade. Como se ambos – políticos e sociedade no Brasil – vivessem em diferentes planetas. Ou melhor: em diferentes tempos.

E Temer? Nosso provável futuro presidente tem 147 mil seguidores. É pouco. No dia 6 de maio exibia um post de três semanas atrás. Nunca precisou ir ao Facebook para pedir votos. Pelo visto não precisará tão cedo.

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