Meu satanista predileto

25 de maio de 2016
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Ando com medo que Temer seja a peça certa nesse momento. Digo “medo” porque minha fantasia anarquista é a de que realmente os dominós caiam todos, um a um. E a tempo de ter haver mobilização por eleições mais amplas ainda este ano. (Se a chapa Dilma-Temer for toda impichada, é essa a lei mesmo – para serem novas eleições presidenciais diretas tem que ser este ano; se for no ano que vem, já na segunda metade do mandato, seria uma eleição indireta).

Mas acontece que Temer virou uma chavinha interessante, e inesperada. Não falo do ministério e demais arranjos políticos, eivados, como era de se esperar, de figuras investigadas por corrupção. (E também nem estou acusando Temer de providenciar foro privilegiado para essa gente; quase todos já o tinham). Temer simplesmente governa com o que tem.

A chavinha em questão é a de ter induzido uma estranhíssima sensação de normalidade low-profile – e isso apesar de estourarem escândalos e embates nacionais todo dia. Não estou dizendo, como os governistas (ex-governistas, ou governistas-sem-governo) gostam de dizer: que tudo se resume a um enorme complô antipetista, e que seria “óbvio” que após o impeachment a tensão política diminuiria.

Pelo contrário, a Lava Jato continua avançando solidamente; os vazamentos mais recentes (Romero Jucá, Renan Calheiros) atingem o núcleo governista em cheio. E a grande imprensa (ao contrário do que o petismo gosta de supor) não está dando muito refresco. Mas eu tenho lido a pressão que a grande mídia coloca com ressalvas – acho que a mídia ainda não entendeu essa virada de chave.

Por exemplo: vejo nos jornais infográficos com os supostos “vacilos” de Temer, incluindo desde o frustrado fim do Ministério da Cultura (que virou o cavalo de batalha da oposição) até a logomarca da gestão, “escolhida por Michelzinho”, que seria de péssima qualidade gráfica e ainda por cima teria o número errado de estrelas.

Tenho preguiça de discutir a questão do MinC – tendo a achar que essa foi uma discussão totalmente errada, e que uma secretaria em um ministério com mais grana daria conta da questão. Mas não quero discutir isso, não. Temer reverteu a decisão, e pronto. E obviamente acho a questão da marca uma bobagem – ela é tão pateta quanto qualquer marca e qualquer slogan de qualquer governo. Fuck it.

Temer fez seu discurso como presidente mais importante hoje. O centro aparente era a questão econômica (e ele viria a vencer seu primeiro embate no congresso, passando nesta madrugada de terça para quarta feira a mudança da meta fiscal, para acomodar o prejú deixado pelo delírio da gestão Dilma – e abrindo perspectivas políticas mais otimistas para as medidas pretendidas). Mas Temer também abordou subjetivamente a questão das mudanças de posição, e de sua postura como governante.

De novo, acho que a mídia entendeu tudo errado. Falou-se em tapa na mesa, em presidente tentando passar uma postura de firmeza fake, em reclamação contra as “agressões psicológicas”. Se você lê a descrição do discurso – e não o assiste – parece um prolongamento das encenações estressadas do período dilmista. Mas absolutamente não foi isso.

Aquela sensação de urgência extrema do governo Dilma, de um terrível cabo de guerra do “nós contra eles” (mas nós e eles quem, cara pálida?) cedeu à tal “normalidade temerista” psíquica. Acontece que Temer simplesmente sacudiu dos ombros o peso arquetípico do presidente salvador; desligou o modo apocalíptico, messiânico e sebastianista (que é tão caro á esquerda populista). Disse até que considera um elogio, quando se referem à atitude dele como a de um primeiro ministro, e não de presidente.

O discurso foi ameno. Temer não socou a mesa; deu um tapinha performático. Não “tentou demonstrar firmeza fake”; demonstrou a firmeza relativa de quem sabe que está numa situação frágil, e não está tentando esconder isso com memética artificial, ou clichês grandiloquentes. Não transformou o reclamo das agressões psicológicas em mimimi; só tratou do assunto em passant (ao contrário do que se explorou nas redes). E ainda fez uma chacotinha educada com seu próprio uso formal de mesóclises.

Quer dizer, não é que as questões não sejam urgentes e complexas. Não é que a Lava Jato não estejam alvejando as figuras ao seu redor. Não é que os agora oposicionistas não estejam colocando pressão total para inviabilizar seu governo desde o início, tentando impedi-lo de governar (vingancinha do que ocorreu com Dilma). Não é que ele não se pareça, mais do que um primeiro ministro, com um primeiro ministro errático, metido numa crise política terminal.

Mas, mesmo assim (ou por isso mesmo), a vaibe não é de um messias ou salvador. É a vaibe de um cara tentando acertar (mesmo que ele não seja ingenuamente isso). Ele não parece escravo da urgência memética. Desprezou o simbolismo, e não colocou mulheres no primeiro escalão? Coloca-as no segundo. A trincheira ex-governista se rebela com a extinção do Minc? Reverte-a (e Caetano e Paula já estão de conversinha com o novo ministro). Jucá é pego num vazamento falando em esvaziar a Lava Jato? Jucá cai em oito horas. Em oito horas. Timing sueco. E Temer nem atacou Jucá, não deu um chilique moralista. Só sacudiu-o do governo, com um breve elogio protocolar, como se aqui fosse uma democracia estável. À vontade com o eventual mal estar social. Talvez seja.

Muito se brinca com o boato de Temer ser satanista. Bom, eu diria que, politicamente, ele é uma espécie de satanista sim – e isso é bom (para ele); é isso que pode fazer dele a peça certa. Porque ele não exala autoridade imperial (como um Antônio Carlos Magalhães, ou um Sarney). Não usa ilusionismo hipnótico-histriônico, afirmando com desfaçatez o oposto do que todo mundo sabe (como um Maluf). Não lança charme intelectual (como FHC). Não posa de herói contra um Golias poderoso (como Lula). Nem se vitimiza enquanto faz barbeiragens (como Dilma).

É evidente que ele não é um cara qualquer tentando acertar. Ele enxerga o jogo do poder – mas a novidade é como ele se encaixa no jogo do poder. Talvez seu treinamento como maçom (o que, para os evangélicos, é satanista o suficiente) sirva para posicioná-lo como esse, digamos, igual entre iguais (mas diferentes da plebe). O estranho é que essa entrega tardia patriarcal aristocrática me parece ser boa para o psiquismo nacional; um tremendo alívio após a chantagem ruidosa, incessante e infantilóide da esquerda governista.

É dar um tempinho nas “narrativas grandiosas”, absolutamente saturadas. Ninguém aguenta mais os rompantes de “indignação sagrada”, nem à esquerda nem à direita. Eu não defendo necessariamente as medidas de Temer – aquelas que têm essa marca social meio cruel que os esquerdistas chamam de “neoliberais”. Não defendo sequer, como disse no início, sua permanência no poder. Sou “que se vayan todos” desde criancinha.

Mas minha intuição me diz que Michel Temer está se preparando, sim, para cumprir esses dois anos de mandato-tampão, com alguma estabilidade política e econômica. Toureando a necessidade de uma reforma política, e o tiroteio da Lava Jato (uma possibilidade é a de os vazadores de grampos atingirem só seu entorno, mantendo-o como pino de segurança institucional). Isso é só um chute por enquanto.

                                                             *

E, a quem reclamar da falta de perspectiva militante na minha leitura, deixo-os com John Cleese, do Monty Python. É vídeo antigo, mas nunca fez tanto sentido.

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Parecer da Câmara diz que primeiro ato de Temer é incompatível com Lei de Responsabilidade Fiscal

POR PAINEL

Luz amarela Parecer técnico da Câmara sustenta que a primeira medida provisória de Michel Temer, que reorganizou a Esplanada, apresenta “incompatibilidades” com a Lei de Responsabilidade Fiscal e com a Constituição. Segundo o estudo, a criação dos ministérios da Transparência e do Gabinete de Segurança exigiria “prévia dotação” e “autorização específica” na lei de diretrizes orçamentárias. Também não há estimativa do impacto financeiro nem demonstração de recursos para custeio.

Duvido Para o governo, não há base para questionamentos. O documento servirá de subsídio à tramitação da medida na Câmara.

É tetra? Auxiliares de Temer sugeriram ao presidente interino nomear Romero Jucá para a liderança do governo no Senado. Jucá assumiria o posto pela quarta vez: foi líder de FHC, Lula e Dilma.

Quero mais O Planalto busca um álibi para manter Jucá fora do Planejamento. Mas o ex-ministro prefere retomar o cargo a ser líder de novo. Aposta no salvo-conduto do procurador Rodrigo Janot para tentar voltar.

Na moita Simone Tebet, a propósito, pediu ao PMDB para sair da disputa pela liderança do governo para não virar vidraça. Recentemente um juiz bloqueou seus bens por suposto desvio de recursos públicos quando era prefeita de Três Lagoas (MS).

Dois ou um Waldemir Moka ganha força para o posto. Raimundo Lira, apesar de presidir a comissão do impeachment, segue no páreo.

Resta um Com a saída de Jucá, o entorno de Temer fala em fundir Planejamento e Fazenda. A proposta deixaria o já influente Henrique Meirelles ainda mais forte. O ministro, porém, deseja apenas que o futuro titular da pasta seja afinado com a Fazenda.

Meta A tarefa é espinhosa, mas o Planalto ambiciona aprovar a reforma trabalhista até o fim deste ano — ou, no máximo, no início de 2017.

Falso brilhante Sérgio Machado é conhecido no Ceará como “o homem dos diamantes”. Diz-se por lá que ele costuma converter seu patrimônio em pedras preciosas.

Mãos de tesoura A EBC passará por reformulação em breve. O plano é cortar boa parte dos contratos com fornecedores de conteúdo.

Você primeiro A prioridade no Itamaraty é quitar a dívida do Brasil com a ONU, de cerca de R$ 500 milhões (US$ 140 milhões). O país deve mais de R$ 6 bilhões a órgãos internacionais e bancos.

Let’s talk Serra e Marcos Pereira (Indústria) acertaram a criação de um grupo de trabalho com os secretários-executivos das pastas. A ordem é trabalhar em conjunto no comércio exterior.

Enough problems Por orientação de seus advogados, Eduardo Cunha passou a evitar, desde o ano passado, personagens envolvidos na Lava Jato. A defesa temia que fosse alvo de grampos, como ocorreu com Delcídio do Amaral e Romero Jucá.

Suspeito Um dos que o peemedebista tentou se esquivar foi Felipe Diniz. Aos investigadores da Lava Jato, o lobista João Augusto Henriques afirmou que Diniz o orientou a depositar dinheiro em contas na Suíça, das quais Cunha é beneficiário.

juca

Adorno marcante Jucá ganhou de colegas, por causa do bigode, o apelido de Magnum, personagem do seriado americano dos anos 80.

Beabá A PEC do limite de despesas anunciada por Henrique Meirelles (Fazenda) é considerada a mais pedagógica das reformas.

Se vira nos 30 Além de limitar gastos com saúde e educação, até aqui binômio sagrado, a proposta atingirá fortemente pequenos dispêndios não obrigatórios. O governo e o Congresso terão de gastar menos e melhor.


 

TIROTEIO

Com a gravação, pensei em designar Jucá para a defesa da presidente Dilma. Conseguiu comprovar o golpe. Eu não faria melhor.

DO EX-MINISTRO JOSÉ EDUARDO CARDOZO, advogado de Dilma, que vai incluir o áudio de Romero Jucá com Sérgio Machado na defesa da petista no Senado.


 

CONTRAPONTO

La garantía soy yo

Laerte Rímoli, novo presidente da EBC, é conhecido em Brasília como um piadista emérito. Na cobertura de uma viagem ao Peru do então presidente da República João Baptista Figueiredo, durante o regime militar, o jornalista, que atuava como setorista do Palácio do Planalto, ligou para o serviço de quarto do hotel em Lima e, em bom português, pediu um suco.
O atendente perguntou, em espanhol:
— Jugo? — indagou, meio em dúvida.
Ao que Laerte Rímoli, já sem conseguir segurar o riso, respondeu:
— Hugo, não, Laerte.

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Renan diz já ter defendido alterar lei de delação e pede desculpas a Aécio

Eduardo Anizelli/Folhapress
Renan Calheiros preside sessão do Senado para decidir sobre a admissibilidade do processo de impeachment da presidente Dilma
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL)

DÉBORA ÁLVARES
DE BRASÍLIA

25/05/2016 10h15

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O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), reiterou por meio de nota divulgada à imprensa na manhã desta quarta-feira (25) já ter defendido anteriormente alterar a lei de delações.

O texto veio em resposta à reportagem da Folha querevela diálogo do peemedebista com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. No diálogo gravado, o congressista demonstra apoio a mudanças na lei que trata da delação premiada de forma a impedir que um preso se torne delator.

Conforme a nota da assessoria de imprensa do presidente do Senado, “todas as opiniões do senador foram noticiadas pelos veículos de comunicação”.

No texto, Renan também se desculpa com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) pela forma como se refere a ele no diálogo com Machado.

“Em relação ao senador Aécio Neves, o senador Renan Calheiros se desculpa porque se expressou inadequadamente. Ele se referia a um contato do senador mineiro que expressava indignação –e não medo– com a citação do ex-senador Delcídio do Amaral”.

Em trecho dos áudios gravados por Sérgio Machados de conversas com Renan, o senador diz que os políticos todos “estão com medo” da Operação Lava Jato. É nesse momento que o presidente do Senado menciona o congressista mineiro. “Aécio está com medo”.

A nota de Renan encerra negando qualquer intenção do senador de interferir nas investigações.

“Os diálogos não revelam, não indicam, nem sugerem qualquer menção ou tentativa de interferir na Lava Jato ou soluções anômalas. E não seria o caso porque nada vai interferir nas investigações”, conclui.

Machado e Renan são alvos da Lava Jato. Desde março, temendo ser preso, Machado gravou pelo menos duas conversas entre ambos. A reportagem obteve os áudios.

Ele também gravou o senador Romero Jucá (PMDB-RR), empossado ministro do Planejamento no governo Michel Temer. A revelação das conversas pela Folha na segunda (23) levou à exoneração de Jucá.

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Jucá senta ao lado de Renan e gera bate-boca

MARIANA HAUBERT
MACHADO DA COSTA
DE BRASÍLIA

24/05/2016 22h07

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Alvo de protestos de aliados da presidente afastada Dilma Rousseff, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) motivou um bate-boca entre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) na noite desta terça-feira (24) durante a sessão do Congresso.

A deputada protestou quando Jucá se sentou ao lado de Renan na Mesa Diretora do plenário da Câmara, onde acontece a sessão e invocou uma questão de ordem, quando os parlamentares questionam o andamento da sessão com base nos regimentos do Congresso.

“Questão de ordem, presidente. O art. 47 do regimento do Senado diz: A assunção de cargo de ministro de Estado […] implica na renúncia ao cargo que o Senador exerça na mesa. Imagino que isso tenha sido feito. E se o senador Romero Jucá o fez, ele não pode fazer parte da mesa”, diz Feghali.

A reclamação da deputada é que, se Jucá não foi exonerado do cargo de ministro do Planejamento, ele não pode se sentar à mesa diretora.

“Estranho sua extrema solidariedade ao senador Romero Jucá”, disse Feghali. “Utilizar-se da presidência para, desigualmente, fazer uma discordância, uma parcialidade, em relação a esse posicionamento, não é correto”, concluiu.

Renan respondeu. “Essa é a manifestação da minha indignação em relação a um desequilíbrio de Vossa Excelência, ao dizer que o senador Romero Jucá está presidindo a sessão.”

Feghali e Renan passaram a bater boca. “Não é desequilíbrio. É uma opinião. Eu não disse que ele está presidindo. Pega a nota taquigráfica [registro dos discursos]. Eu não disse isso. Vossa Excelência está parcial demais”, bradou Feghali.

“Ele não está presidindo. Parcialidade é de Vossa Excelência”, encerrou a discussão Renan.

Após o entrevero, o deputado Sibá Machado (PT-AC) assumiu o microfone. Ele também provocou Jucá e o presidente interino, Michel Temer.

“Este é um governo breve. Como assim foi a presença de Jucá no Ministério. Em outra oportunidade ficou 3 meses. Agora, somente 15 dias”, afirmou Machado.

VETOS

Em mais de nove horas de sessão, senadores e deputados analisam 24 vetos presidenciais. Eles já aprovaram todos os vetos em uma votação em bloco mas 13 deles foram destacados para serem analisados individualmente. Desses, quatro foram mantidos e três rejeitados e, portanto, o conteúdo deles passa a ter efeito. Os outros destaques ainda serão analisados nesta sessão.

Assim que a votação dos vetos terminar, os parlamentares iniciarão adiscussão da revisão da meta fiscal com deficit primário de R$ 170,5 bilhões. A votação representa o primeiro desafio do presidente interino Michel Temer no Congresso.

Um dos vetos rejeitados restabelece o repasse de 20% do valor de venda de imóveis da União para os municípios onde o respectivo imóvel está localizado. O trecho era parte da medida provisória editada pela presidente afastada Dilma Rousseff que tratava da administração, alienação e transferência de gestão de imóveis da União para a constituição de fundos para o governo.

Os congressistas também derrubaram o veto à anistia de policiais e bombeiros militares que participaram de movimentos reivindicatórios em diversos estados. Os militares receberiam penas administrativas, mas com a rejeição ao veto, eles serão anistiados. A proposta havia sido vetada sob a justificativa de que poderia causar desequilíbrios nas corporações.

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Temer prevaleceu em madrugada de flashbacks

Josias de Souza

25/05/2016 05:23

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Se você conseguir visualizar o governo como um filme, poderá entender melhor o que aconteceu no plenário do Congresso na madrugada desta quarta-feira. Exibiu-se o mesmo filme pela terceira vez. A diferença é que os mocinhos trocaram de papel com os bandidos. E vice-versa. Houve, de resto, um ajuste no enredo. Proposto pelo interino Michel Temer, o rombo no Orçamento de 2016, de R$ 170,5 bilhões, é maior do que os buracos que Dilma Rousseff, a afastada, havia apurado em 2014 e 2015.

Temer prevaleceu com a providencial ajuda de Renan Calheiros, com quem conversara no início da noite de terça-feira. Já meio entediado de dirigir a mesma cena pela terceira vez, Renan reagiu com frieza no instante em que parlamentares do PT e do PCdoB, a nova oposição, se queixaram do rolo compressor imposto por uma maioria que agora inclui os ex-oposicionistas PSDB, DEM e PPS. “A minha posição é difícil, porque a maioria e a minoria trocam de posição e eu tenho que usar as mesmas regras regimentais”, disse Renan.

A sessão foi permeada de flashbacks. “Não posso agir diferentemente da maneira que agi por acasião da redução da meta fiscal de 2014, logo depois da eleição, e da redução da meta de 2015”, afirmou Renan. “Vou fazer o que o regimento manda, pela terceira vez. Já estou me especializando nisso.” A ex-oposição, que antes hostilizava Renan, festejou o modo como ele pilotou o trator, sua especialidade.

Emperrada pela análise de um monturo de 24 vetos presidenciais, a sessão durou mais de 16 horas. Começou por volta de 11h30 da terça-feira. E terminou às 3h44 da madrugada desta quarta. No final, a proposta de revisão da meta fiscal feita pela gestão Temer foi aprovada em votação simbólica. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ), esgoelou-se pedindo a Renan uma verificação nominal do quórum no Senado. Mas Renan havia desligado o microfone do plenário. E fingiu não notar.

A maioria pró-Temer já havia sido esboçada na votação de um requerimento em que o PMDB requisitara a Renan a interrupção dos debates. A vontade do plenário foi aferida visualmente. Mas o PT exigiu que Renan realizasse entre os deputados presentes uma contagem nominal. Manifestaram-se a favor do ritmo de toque de caixa 287 deputados. Contra, apenas 14.

Renan se absteve de repetir a verificação do quórum também no Senado. Ficou entendido que a tropa parlamentar de Dilma esfarelou-se. Apenas PT, PCdoB e o nanico PTdoB pegaram em lanças contra o projeto de Temer. Até o PDT, que votara contra o afastamento de Dilma, aprovou o déficit de R$ 170,5 bilhões.

No filme desta madrugada, partidos como PP, PR, PSD, PTB e congêneres, que haviam traído Dilma na votação do pedido de impeachment, postaram-se novamente ao lado de Temer. Foi dando que o presidente interino recebeu o apoio dessas legendas. Exatamente como fizera Dilma.

Por mal dos pecados, nesse universo, as operações de compra e venda de lealdades deixaram de ser vistas pelo ângulo da moralidade ou da imoralidade. Tornaram-se dados de um fenômeno que se repete.

Resta agora saber qual será o preço do voto no balcão da fisiologia no instante em que Temer enviar ao Congresso o teto anual de despesas, que pressupõe o corte de verbas destinadas a áreas como saúde e educação. Como se comportará a bancada dinheirista diante de um projeto de reforma da Previdência ou de uma proposta de recriação da CPMF?

Se o afastamento de Dilma ensinou alguma coisa foi que o miolo fisiológico do Congresso só merece confiança até certo ponto. O ponto de interrogação.

 

 

 

Congresso aprova mudança da meta fiscal e autoriza deficit de até R$ 170,5 bi

Felipe Amorim e Arthur Franco Kleiber
Do UOL, em Brasília e em São Paulo

25/05/201604h01 > Atualizada 25/05/201610h38

O Congresso Nacional aprovou em votação simbólica, na madrugada desta quarta-feira (25), a alteração da meta fiscal do governo para este ano, medida considerada como o primeiro grande teste do apoio ao presidente interino Michel Temer no Legislativo. A mudança vai para sanção presidencial.

O governo Temer havia pedido autorização do Congresso para mudar a meta e ampliar o rombo previsto nas contas públicas. Assim ele poderá fechar o ano com um deficit (diferença entre a arrecadação e os gastos) de R$ 170,5 bilhões.

Anteriormente, a presidente afastada Dilma Rousseff havia proposto um deficit de R$ 96 bilhões, mas ela não chegou a ser votada pelo Congresso.

Com isso, o Brasil deverá completar três anos consecutivos sem conseguir fazer economia para pagar os juros da sua dívida.

Caso a medida não fosse aprovada até o fim deste mês, o governo teria que cortar despesas e poderia ficar sem dinheiro para programas federais, já que teria que seguir a meta atualmente prevista na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de fechar o ano com uma economia de R$ 24 bilhões.

Sessão foi tumultuada

A longa e conturbada sessão durou mais de 16 horas, e foi encerrada pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), pouco antes das 4h desta quarta-feira.

Grande parte da sessão, no entanto, foi destinada à votação de 24 vetos presidenciais, dos quais um foi rejeitado integralmente e dois tiveram trechos também derrubados. A votação da meta fiscal começou por volta das 1h15 e durou cerca de três horas.

Além desses vetos presidenciais, a sessão foi marcada pelas tentativas da oposição de obstruir a votação. Os parlamentares oposicionistas, além de atacarem o senador Romero Jucá (PMDB-RR) –que deixou o Ministério do Planejamento após o vazamento de gravações–, também pediram, diversas vezes, que a mudança da meta fosse votada na Comissão Mista de Orçamento (CMO). Renan Calheiros precisou intervir para evitar que a sessão se arrastasse ainda mais.

A presença de Jucá ao lado de Renan na Mesa Diretora do plenário da Câmara durante votação gerou protestos. A deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ) invocou uma questão de ordem, quando os parlamentares questionam o andamento da sessão com base nos regimentos. A reclamação da deputada é que, se Jucá não foi exonerado do cargo de ministro do Planejamento, ele não poderia se sentar à mesa diretora.

Alan Marques/Folhapress

Presença de Jucá ao lado de Renan gerou bate-boca

Durante a sessão, parlamentares interromperam os oradores ao falar fora dos microfones ou sem liberação da palavra. Os senadores Vanessa Grazziotin (PC do B-AM) e Lindbergh Farias (PT-RJ), em diferentes momentos, chegaram a ocupar as tribunas do plenário em protesto contra o tempo de fala concedido a eles, que entenderam ser menor do que o regimento determina.

O deputado Paulo Pimenta (PT-RS) questionou o fato de, como o texto foi enviado por Temer ao Congresso no dia anterior, não houve tempo para que os parlamentares apresentassem emendas ao projeto.

Pimenta também criticou os cálculos feitos pelo governo Temer. Para ele, o novo texto busca justificar um arrocho econômico. “Esse número é absolutamente artificial e incorreto. É uma metodologia contraditória que busca criar um cenário de terra arrasada, que não é o da economia brasileira hoje, para justificar medidas que visam atingir os programas sociais. Conhecemos essa história”, afirmou.

Já Jucá, que teve papel importante para aprovar a nova meta, principalmente como ministro do Planejamento, defendeu que o ajuste marca o início de um período de mais realismo fiscal e orçamentário no governo.

“Já estive aqui neste plenário diversas vezes mudando a meta de superavit para deficit, porque o governo não fazia um Orçamento realista. Esta é uma noite histórica porque o governo mudou na sua política fiscal e orçamentária. Estamos colocando um espaço fiscal equilibrado” disse Jucá.

Líder do PMDB “amplo apoio” ao governo Temer

O líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), comemorou a aprovação da meta fiscal. “Ficou demonstrado aqui uma maioria bastante significativa votando com o governo. Então há um sentimento do Congresso de apoio amplo ao presidente em exercício Michel Temer”, declarou o peemedebista.

Eunício negou atropelos na votação. O líder do PMDB destacou que a oposição liderada pelo PT errou em pedir verificação da votação de um requerimento em momento inapropriado, o que facilitou um desfecho rápido para a sessão. (Com Agência Senado)

Relator da meta fiscal na CMO diz que vai concluir parecer até segunda-feira

18/05/201616h46

Em Brasília

Escolhido relator da revisão da meta fiscal de 2016 na Comissão Mista de Orçamento (CMO), o deputado Dagoberto (PDT-MS) afirmou nesta quarta-feira (18) que vai concluir a elaboração do seu parecer da proposta até segunda-feira. O deputado disse que até sexta-feira espera receber os números do governo para elaborar seu texto. O colegiado marcou uma reunião para a segunda às 16h a fim de votar a proposta, antes de a matéria ser remetida para o plenário do Congresso.

“Lógico, não vou fazer nada que não seja (realista), para corrigir daqui mais 15 ou 30 dias, porque quem vai ficar desmoralizado serei eu. Eu vou fazer aquilo que for correto”, disse ele, ao afirmar que a discussão sobre a meta não é uma “questão ideológica” e sim numérica.

Mesmo tendo votado contra a admissão do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, Dagoberto disse que não tomará qualquer posição para defender a petista. “Não faria isso, senão não aceitaria a relatoria”, completou. Para ele, a escolha do seu nome pelo presidente da comissão, deputado Arthur Lira (PP-AL), se deve pelo fato de o PDT ter atuação independente – a legenda não faz parte da base aliada do presidente em exercício, Michel Temer.

A CMO articula aprovar o parecer da revisão da meta fiscal antes de ele ser votado pelo plenário do Congresso, o rito normal de tramitação desse tipo de proposta. Contudo, o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse hoje mais cedo que quer votar a proposta diretamente em plenário na próxima terça-feira, 24, a despeito de ela ter sido votada ou não pelo colegiado.

No entanto, o presidente da CMO afirmou não ver problemas de a revisão da meta de 2016 ser aprovada diretamente pelo plenário do Congresso sem passar pelo colegiado que dirige. Ele disse que espera votar a nova meta na CMO para que a discussão não chegue “dura” na sessão do Congresso. “A CMO não é uma condição ‘sine qua non’ para a aprovação da meta (pelo plenário do Congresso)”, disse Lira.