BRASÍLIA – A forte reação da presidente Dilma Rousseff, nesta terça-feira, 12, contra o vice Michel Temer foi combinada com seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva. Desde a última segunda-feira, 11, quando Temer deixou vazar um áudio no qual falava para um grupo de parlamentares do PMDB como se o impeachment de Dilma já estivesse aprovado pela Câmara, o Palácio do Planalto decidiu que era preciso escancarar, com todas as letras, quem eram os “golpistas”.

Lula aconselhou Dilma a dar “nome aos bois” quando se referir, daqui para a frente, à “trama” que eleva a temperatura política em Brasília. Pediu que ela demonstrasse os sentimentos porque, na sua visão, as pessoas querem ver o lado “humano” dos governantes, mas não perdoam “traições”.

Foi esse o roteiro que a presidente seguiu nesta terça-feira, ao não deixar dúvidas sobre quem estava se referindo no seu grito de guerra. A estratégia consiste em colar a imagem de Temer à do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que conduz o processo de impeachment, embora seja réu em ação penal aberta pelo Supremo Tribunal Federal, acusado de desvio de recursos na Petrobrás.

No Salão Nobre do Planalto, diante de uma plateia formada por alunos e professores, Dilma chamou Cunha de “chefe” e Temer de “vice-chefe” do golpe. “Um deles é a mão, não tão invisível assim, que conduz com desvios de poder e abusos inimagináveis o processo do impeachment”, disse ela. “O outro esfrega as mãos e ensaia a farsa do vazamento de um pretenso discurso de posse. Cai a máscara dos conspiradores.”

Dilma se referia ao áudio, enviado nessa segunda-feira por Temer a um grupo de parlamentares do PMDB, no qual eram apresentadas as diretrizes do governo de “salvação nacional” idealizado por ele, como se a presidente já tivesse caído. Temer afirmou que a gravação foi encaminhada “acidentalmente”, mas em nenhum momento o governo acreditou nesta versão.

O Planalto quer agora aproveitar a “ansiedade” do vice para ganhar apoio na luta contra o impeachment e derrubar o processo no plenário da Câmara, após o revés sofrido nessa segunda-feira na comissão que aprovou relatório do deputado Jovair Arantes (PTB-GO), favorável à deposição de Dilma.

A cinco dias da votação, o governo vai bater na tecla de que a presidente é “vítima” de um “conluio” da dupla Temer-Cunha, em aliança com a oposição. A ordem é destacar que nenhum País será pacificado com “fraude, farsa e traições” e que a crise pode se agravar ainda mais, se Temer assumir o comando.

Mesmo com a nomeação suspensa para chefiar a Casa Civil, Lula continua cuidando das negociações com deputados, senadores e dirigentes de partidos aliados, na tentativa de ampliar o apoio a Dilma. A contabilidade do Planalto indica que a presidente tem, hoje, aproximadamente 200 votos – apenas 28 a mais do que o necessário – para barrar o impeachment na Câmara.

Na prática, porém, embora Lula diga que só o “Sobrenatural de Almeida” tirará essa vitória do governo – numa referência ao personagem do escritor Nelson Rodrigues que fazia com que um time perdesse, quando tinha tudo para ganhar -, o desfecho da votação de domingo é imprevisível.

 

 

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