Perestroika no PT, por Percival Maricato

Há várias décadas atrás estive entre os que ajudaram a fundar  o PT. Entre outras funções fui desde presidente de diretório, membro da primeira comissão de ética, até fiador de locação de sede, cessão de minha residência para mais de uma dezena de festas visando arrecadar recursos ou de sítio onde puderam ser realizadas as primeiras reuniões nacionais, além de ser um dos recordistas na venda de estrelinhas de plástico.

Acreditava que o partido seria uma nova força política, inovadora e generosa, destinada não só a distribuir renda em um país tão injusto, mas também a conseguir, finalmente, a soberania e a democracia política, o crescimento e a independência econômica, a imposição da ética na política, a com o exemplo, fazer com que os demais partidos agissem como tais, cumprissem suas funções, fortalecendo a democracia, entre outras metas em vez de serem depositório de oportunistas e coronéis.

Não há dúvida que muitas foram as conquistas, especialmente a inclusão social, política e econômica de muitos milhões de brasileiros, o que mudou a face do país. Em sua trajetória, infelizmente, o partido acabou “se tornando igual aos outros”, como disse Lula recentemente. Nas últimas eleições os parlamentares eleitos pelo PT estiveram entre os que mais arrecadaram com empresas e gastaram para se eleger, alguns mais de cinco milhões de reais. O Lava Jato mostra mais um dos vícios que ele não soube evitar. Ao contrário, filiados e aliados procuraram se aproveitar.

O maior mal, porém, foi o afastamento das bases, que exceto no seu início, conseguiram participar das decisões. Após um debate entre facções, que tomou conta da vida interna, seus líderes foram se tornando parlamentares e governantes e aos poucos foram se identificando em práticas políticas e vida pessoal aos demais políticos, com honrosas exceções. Em vez de se abrir, fechou-se. Ainda há participação de alguns grupos e setores populares, mas não é nem de perto o que foi sonhado.  Destes, alguns ainda têm em seu horizonte interesses estreitos e exclusivamente corporativos.

Lembro que até cerca de dez anos após a fundação ainda tentei contribuir para que o partido voltasse ao rumo sonhado. Escrevi vários artigos, entre os quais PERESTROIKA NO PT (ver anexo) publicado na Revista Debate, em 1991 (outro na revista Debate, na mesma época). Perestroika era o movimento de abertura com que o partido comunista russo tentava livrar-se das amarras stalinistas e sobreviver. Estes artigos são importantes para se ver que os problemas começaram naquela época, com uma valorização da perseguição do poder sem observância dos princípios políticos e éticos definidos na fundação. Estes iriam ser esvaziados. Em resumo, apontavam quais as deformações que estavam acontecendo, descolamento das lideranças das bases principalmente, e fazia propostas de solução. Como nada mudava, preferi deixar o partido. Antes haviam milhares de idealistas dispostos a promovê-lo e hoje precisa pagar pessoas para segurar suas bandeiras nas ruas, nos dias de eleição.

O PT, agora isolado, desgastado pelas denúncias de corrupção em seu governo, até poderá continuar a contribuir para melhorar a situação dos de baixo, mas estará muito longe dos ideais que motivaram sua fundação. Deixa um espaço imenso para outras forças políticas e pessoas que tem ainda os mesmos ideais de seu início.

Percival Maricato

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